segunda-feira, 24 de março de 2008

De Volta ao Lar


– Então conserva o mesmo cheiro de mofo... – falou consigo Lúcio com os pés no piso de taco da velha habitação. – Onde está você? – esse era o motivo de sua volta àquele lugar.

Lúcio é um senhor estranho... alguém o queria num asilo, um outro o tratava indiferente – Aquele ali! Deve ser Maçom – condenava um decrépito cidadão. Mas uma grande maioria sente que algo ocorrido no passado possa ter a ver com sua autista animosidade. Passado este não compartilhado com os moradores desta região, haja vista Lúcio ter aparecido na cidade ainda jovem, sem lenço, sem documento.

“Bom, ele gosta de ser chamado de Sr. Férrer, mas não existe família aqui perto com este sobrenome. Ele vive sozinho desde muito novo!”, comenta sobre ele um casal contemporâneo seu. Não se teve relatos de algum amor ou aventura com qualquer criatura que seja. Nada se sabe sobre parentes. Ninguém nunca o foi visitar. Não! Nada! Ninguém! – Estranho... – era um coro reflexivo e uníssono da sala onde estávamos.

Não tem amigos, é totalmente auto-subsistente. Tem uma horta, planta arroz e feijão em pequena escala, animais de abate tem vários, dentre galinhas, patos, capotes, até mesmo um pequeno lago donde pesca seus peixes. Raramente compra algo no açougue da cidade.

– Olha senhor, ele sempre faz a mesma coisa todos os dias! Logo depois de fechar a sua locadora de livros (Quando chegou à cidade foi arrebatado por um grande colecionador de livros que faleceu há anos deixando tudo pra ele, inclusive casa e dinheiro em banco. Na época o pequeno Lúcio vivia largado, dizia que não tinha pais, nem família, e por isso, as ruas eram o seu lar. Foi este colecionador que lhe deu cultura e um trabalho de auxiliar na recuperação de livros), umas cinco da tarde, viaja pela mesma estrada. Por aqui tem quatro estradas com destinos diferentes, mas ele sempre viaja por essa mesma, todos os dias. Volta um pouco depois do cair do Sol, coloca a mesma música... um rapaz aqui entende dessas coisas que ele escuta, disse se tratar de um tal Villa Lobos. Mais tarde sai de casa trocando as pernas e com uma garrafa de vinho vagabundo na mão, gritando: ONDE ESTÁ VOCÊ?, repetidas vezes – relatou-me uma afobada senhora.

– E vocês nunca tiveram a curiosidade de segui-lo pra saber o que faz todos os dias naquela estrada? – inquiri os moradores enquanto pegava do cheiroso café distribuído a todos pela representante do grupo, Senhora Nêres, com quem havia eu conversado e negociado minha vinda a esta cidadela. – O seguimos algumas vezes sim! Mas quando chega numa parte fechada da estrada, uma velha linha férrea, ele desce do carro e se embrenha pela mata à dentro. Ninguém nunca teve coragem de entrar na mata, e nossos olhos se despedem dele – conta-me Nêres decepcionada, sentando ao sofá depois de me servir a xícara.

No terceiro dia de trabalho (Passei todos esses dias escondido na casa de Nêres, nosso investigado não poderia saber de mim), Lúcio fôra mais longe. Distanciava-se, e eu não podia o perder de vista. A mata era alta, o que ajudava na camuflagem, mas me deixava com uma comichão dos diabos.

– Então conserva o mesmo cheiro de mofo... – ficou imóvel por um instante, parecia perceber algo. Depois caminhava de um lado para outro da casa. – Onde está você? – estava ele eufórico. O cheiro de mofo era irritante. Pra segurar o escape de um espirro, fechei as narinas ao passo que também meus olhos incontinenti, o bastante para o perder de vista... – Então aí está você! Esperei bastante por este momento – Lúcio estava a minha frente. Não era mais aquele velho enterrado num mausoléu profundo de angústia e sofrimento confino, a isto dava ares de vitória e uma felicidade expressivamente doidivanas no olhar, um brilho macabro e, ao mesmo tempo, a mim familiar.

Endereço-lhe meu indicador confuso e trêmulo – Eu conheço o senhor, Sr. Férrer... – a meio caminho titubeio entre pergunta e afirmação. – Sim, sabes bem quem sou, não tenho dúvida alguma! E sabes também que não foi o acaso que o trouxe até mim. Livre arbítrio, este sim o trouxe – Nunca senti um embrulho no estômago como o daquela noite quando de sua investida em me fazer lembrar: – Velha estalagem, piso de taco... O cheiro de mofo... Sinta! – Uma pausa em sua fala e... – Onde está você? Diga! – As lembranças me vêm – Meu Deus! Não... eu sonhei com isto... – contrição e lágrimas me tomam num desesperador momento. Um grande pesadelo de minha infância, trauma apagado da lembrança até então, trazido à tona. Concreto, real!

– Sim! Onde estás agora, a velha estalagem, já estiveste antes! E não! Não era um pesadelo. Contenha-te! Sabes de tua culpa!

– Eu era apenas uma criança! Como um garoto de nove anos pode ser responsável por seus atos? Isso não é justo! Não...

– Justiça? O que sabes de justiça? Tenho julgado os homens por toda minha existência! Não eis tu de entender os desígnios de Javé! Teu destino esteve o tempo todo em tuas mãos! Ele vos deste isto, livre arbítrio! Sentes o cheiro? Sei que sentes... Toda uma família, tua família... Cruel foi seu destino. Não negues de maneira alguma tua natureza! Queimaste todos enquanto dormiam e os enterrara sob este taco mofado para que não sentissem o cheiro da carne queimada... Carne de tua carne! Sangue do teu sangue! Agora teus restos farão compania aos deles.

– A cidade... É ilusão? Também tínhamos horta em casa! Meu pai adorava livros, tinha muitos. E Villa Lobos?! As Bachianas... ele ouvia sempre! O vinho... era a bebida preferida de minha mãe! Fez tudo isso pra que eu lembrasse, senhor Lúcio Férrer?

– Certamente que sim! Mas, por favor, podes me chamar de Lúcifer!


terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

A Farra


O banho conseguiu lhe tirar uma parte significativa da noite virada, mas o semblante de Jamil ainda denunciava o desgaste; bebidas, mulheres... não mensurou ao certo a quantidade, nem mesmo a qualidade da farra.

O quarto se assemelhava muito à devastação deixada por um assaltante; roupas por todos os lados, dentre blusas, calças jeans, cuecas, tudo ao chão. Pega de uma cueca, short jeans, camiseta e um tênis... o perfume! Agora está pronto. Esbarra numa rede armada, pondera descanso por um momento, mas precisa ir, estão lhe esperando, renuncia o fracasso e vai, afinal é carnaval.

Senta-se no banco de trás do carro, a menina lhe pega forte num beijo com textura de gloss, ânsia de vômito... arranha-lhe o peito com as garras inquietantes de uma felina. Sedenta e perspicaz agarra o volume vacilante de seu short impudico, são suspiros e manhas satirizadas pelos amigos dentro do veículo.

O velho Chevette sai, a pista vai se estreitando a cada acelerada. Os ébrios se divertem e o consciente no passageiro se apavora. São gritos de “é carnaval” de um lado e “pára, pára” do outro. Jamil, sua garota e um amigo; sexo e nimbos de maconha em meio às luzes dos carros na outra mão da avenida chuvosa. A noite promete...

A atmosfera dentro do carro se torna nauseante. Jamil estende a mão direita à boca em tentativa frustrada de abafar o fluido fedegoso que começa a jorrar sem parar sobre o rosto do motorista. O cheiro forte provoca o refluxo dos demais. Todo o carro é tomado por uma mistura gástrica de dias de carnaval.

Os pés deslizavam nos pedais enxurrados pela gosma gástrica do motorista atordoado. Invadem a contra-mão da avenida em direção à ponte. A 100 por hora atingem o rio. Fogem pelo pára-brisa estilhaçado, desabam à mata ribeirinha e dão exaustivas gargalhadas. De longe se pode ouvir a música na avenida. Silêncio de todos pra ouvir: “atrás do trio-elétrico só não vai quem já morreu”... – Vamos, vamos! – Grita a garota hipnotizada. Jamil tenta se levantar, quer correr pra festa, mas não sente a perna esquerda. Na pressa de se salvar, lacerou o membro no pára-brisa, e agora via seu sangue cuspir da veia femoral sem cessar. Grita agonizante pelos outros que não lhe ouvem, foram todos atrás do trio-elétrico, e Jamil... já morreu.


terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Parte V

“DR. BORIS DESAPARECIDO”

E a notícia se apresentava desta forma: “O clínico geral Boris Mictian está desaparecido desde a noite passada. Ele fôra visto saindo de seu consultório por volta das dezoito e quinze, como de hábito, e de lá seguiu a caminho de casa, mas a sra. Mictian disse não ver o marido desde sua ida para o trabalho naquela tarde, a treze e quarenta...”. Dizia também o jornal que transeuntes notaram um aspecto visivelmente perturbado no médico, pois caminhava incontinenti e a palidez em sua tez já alva, aludia muito a sua apreensão.

Eva repousava o jornaleco sobre a mesa do café e já se encaminhava à delegacia quando lhe surge à frente Bruna. Tinha algum tempo desde a última vez em que se viram. Bruna se formara dois anos antes na Faculdade Estadual de Farmácia até voltar à Altaneira e trabalhar no ambulatório como auxiliar de Boris. Tinha uma grande admiração por Eva, muito pela beleza, e mais pelo brilhantismo de nossa detetive, nas provas na época do colegial sempre granjeava as melhores notas.

Como já dito nesta narrativa, eram muito amigas, mas o tempo e suas díspares atividades as levaram naturalmente ao distanciamento. Destarte era inesperada uma visita de Bruna à Umatinga, melhor dizendo, à Eva. Dizia estar intrigada com a onda de infartos, queria saber da opinião de Eva.

- Soube do doutor Boris? – Inquiria Eva com uma frieza que notavelmente refletiu no comportamento de Bruna. Esta empalideceu e gaguejou três vezes até conseguir responder.

- Não... Eva, sou suspeita de algum crime?

- Desculpe, essa história está me cansando. – Olhava meigamente para a amiga, numa mescla de saudade e desconfiança. - Está na primeira página do Panacéia, doutor Boris desapareceu.

Caldas ficava a 36 quilômetros de Altaneira, um pequeno distrito onde se encontrava a Ordem das Carmelitas. Beatrice tinha 16 anos incompletos quando resolveu se devotar ao rigoroso claustro da Ordem. A irmã, Bruna, era expressamente contrária à idéia na época, mas depois foi admoestada com freqüência por Beatrice, persuadindo-lhe em reconhecer seus reais votos de renúncia.

- Estou certa de que ela tenha escolhido com muita maturidade seu caminho, mas não queria minha irmã afastada da família assim. – Respondia à Eva sobre o paradeiro de Beatrice enquanto tomava mais um gole de café na padaria. –Lembro-me dela partindo pela janela daquele ônibus, estava firme de sua decisão, e sorriu para mim enquanto eu me derretia em lágrimas por ela.

Beatrice era uma garota que distava muito dos padrões de beleza vigentes. Usava óculos desde os 6 anos devido à miopia, na adolescência adquirira escoliose, talvez acentuada por sua estatura que já aos 14 anos era maior que a de Bruna aos 17. Isso tudo somado a algumas muitas acnes que deformavam seu rosto, rendendo à pobre jovem vários apelidos degradantes, motivo de sua penosa introspecção.

Bruna ouviu de um dos pacientes que o Padre tinha sido assassinado por uma pessoa fantasiada, e que Eva encontrara frascos de fármacos.

- Princípio ativo, Heparina Sódica. - Identificava Eva à amiga. – Além de álcool que utilizou para apagar quaisquer provas de identificação. Não foram encontradas digitais nos frascos.

- Essa coisa sabe muito bem o que está fazendo. – Aludia Bruna à criatura.

- Detetive, encontraram o doutor Boris.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Lembranças da Dor


O relógio branco e redondo marcava cinco e quinze da manhã, e as cortinas dançavam à melodia uivante dos ventos. Acordei desprotegido do frio naquela quinta-feira. Meus olhos timidamente descerravam aos raios matutinos. Já tinha dormido pouco na noite passada, as dores não cessavam e agora o Sol me queimava a face gélida. Esqueceram de fechar as janelas. Ficaria deitado ali por mais tempo.

Olhei pro lado e lá estava ela. Eu poderia amá-la? Ela dormia tenramente enquanto minha vista passeava por todo seu corpo jovem. Minha fixação naquele momento por seu seio era algo patológico, a luz lhe mostrava por baixo da fina camisa de algodão. Somente naquela manhã pude perceber de sua beleza, até então era só mais uma que ao meu lado compartilhava dor.

Peguei do espelho na cabeceira da cama, como fazia toda manhã, e percebia quanto o tempo me vinha maltratando, mais choros e soluços, era assim toda manhã.

Lembro do passado, de como eram boas as férias do colégio. Beto levava todos pra passar a primeira semana no sítio de seu tio Valter. Era mágico aquele lugar. Além das verdes matas, a casa tinha um clima nostálgico da época do cangaço, tudo cheirava a couro. Logo na entrada um gibão de vaqueiro ornava a parede da sala. Os tamboretes eram feitos de couro de carneiro, e ficavam na varanda. No quintal, galinhas, patos, capotes, o velho Dog amarrado ao pé da serigüela que latia sem parar à presença de alguém e o melhor de tudo, o peru. Eu me encantava com aquele bicho, era só assobiar que ele respondia, “Aglugluglu” e depois arrastava suas asas pelo terraço. Só mesmo aquele peru pra me tirar uma lasquinha de alegria...

Seu rosto era de uma beleza simples, delineada. O nariz era o que tinha de mais singelo, emoldurado por suas maçãs rosadas. Senti meu coração, algo dentro de mim estava vivo, ascendia um sentimento já há muito esquecido. Olhava saudoso pra aquela jovem. Eu a amaria zeloso, cuidaria de sua ingenuidade, de sua meninice, seria seu amigo, seu pai, seu amante. Foi assim com todas que um dia amei.

Queria que ela ficasse por mais tempo, um sentimento egoísta talvez, mas precisava dela ali do meu lado, eu a queria muito. Sei que iria embora, e deixaria saudade. Só saudade, não doaria um pouco de atenção, não beijaria minha boca enrugada, não sentiria seu corpo nu cair por sobre o meu. Sei, sei, sei! Que tortura!

Minha vida perdia o sentido. A cada oxigênio inspirado, a cada feixe de luz que em minha vista viesse incidir, a cada toque frio da amanhã, a cada unção de dor, era sempre a mesma pergunta: Ainda preciso disso? Tenho que dar fim a essa dor! Não a suporto mais.

Retiro a máscara, insígnia de minguada vida. Asfixia. Enfermeiras tomam meu leito moribundo, era um mar de branco, e em meio a uma onda alva que pendia abaixo a vi acordar. Despedi-me dela pra sempre, desejei-lhe melhoras, que a dor que sentia não fosse da ordem de meu câncer, foi quando vi seu meigo sorriso pela única e última vez.



segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Parte IV

- Senhora, encontrei isto no local. – O local a que se referia o policial era o altar-mor da Igreja Paroquial. Eva recebia das mãos do guarda um papel amarelado, envelhecido, uma estilha de pergaminho deixada provavelmente para a vítima com duas inscrições em latim.

“Bella res est mori sua morte.”

“Que coisa mais bela, morrer de morte natural.”

“Res ab exitu spectanda et dirigenda est.”

“Antes de entrar, pensar na saída.”

- Obrigado. – Ela fôra acionada por volta das dezenove horas por uma beata que lhe relatara ofegante o caso do Padre Miguel, vítima da endemia de infarto. Este veio a falecer em meio a uma suposta revelação, algo que há muito deveria ter feito, mas que receava a recepção dos seus fiéis, preferindo deixar até então no anonimato. Dizia sua vida estar em risco, e se não comunicasse o que se passava em Altaneira, muita gente inocente viria a padecer a um mal iminente.

- A missa prosseguia dessa forma quando o Padre Miguel veio a desabar do altar, rolando pela escadaria, - Relatava a beata – daí vimos que uma figura estranha corria pelos arrebaldes da igreja. O sacristão Valério pegou da espingarda e, junto com os outros, foi à caça da criatura.

“- Ela usava de uma máscara negra e rutilante como piche. - E agregada a esta, uma longa peruca feita de palha amarela ouro que ia da cabeça à parte posterior dos joelhos. - E da peruca surgia um par de chifres como os de um bode .- Ela também carregava uma espécie de bolsa de tecido. - Uma demoníaca imagem, senhora.” – Os beatos contavam afobados o que viram à Eva.

Mesmo ferida no calcanhar pelo chumbo de Valério, a criatura conseguiu pular da ponte e seu corpo despencou para o rio, sendo levado rapidamente pela correnteza, despedindo-se dos olhos de todos ali que, mesmo temerosos, ansiavam as últimas olhadelas na criatura, esta ia se perdendo dentre os arbustos que circundavam as margens do rio enevoado. O que era para ser apenas mais uma missa de uma despretensiosa quinta-feira, acabou por mudar a rotina de vida de todo o povo daquela cidade.

Vários feixes de luz se intercruzavam na mata à beira-rio naquela noite, era Eva que pegava de alguns dos seus para desbravar o local onde possivelmente estaria a besta. Os populares a seguiam se acotovelando. Um rastro de sangue fôra encontrado, além de um frasco de heparina sódica e uma seringa que tinham sido esterilizados com álcool. A uns 100 metros de sua origem, o sangue possivelmente já havia sido estancado, apenas alguns ramos quebrados de arbustos possibilitaram prosseguir na caça. A trilha foi dar no asfalto, por onde a besta conseguiu escapar. Se via no rosto de Eva uma frustração deveras acentuada. Podia ela ter se apoderado do possível assassino de seu pai. Estava muito perto de pegá-lo, mas a má fortuna se assenhoreava de sua investida.

Agora Eva tinha mais certeza de que os infartos em Altaneira foram induzidos de alguma forma. Precisava investigar pautada nessa perspectiva. "O pergaminho encontrado na igreja deveria ter sido deixado pelo assassino ao padre antes de sua morte", por esta razão o pároco naquele momento conduzia a missa em caráter de revelação. “Morreu, pois sabia demais”, assim refletia Eva, já que padre Miguel passava dos 60 anos, diferia do perfil das outras vítimas, então. "O assassino tinha algum conhecimento fármaco", a heparina é uma substância anticoagulante, ele usou para estancar o sangue, e após a ter injetado, esterilizou o frasco e a seringa de forma a retirar qualquer impressão digital. Era meticuloso, sagaz.

No outro dia o Panacéia; o diário jornalístico de Altaneira, que tem como dono o médico Boris; cedo chega às casas, e a manchete principal seria de se esperar que fosse relacionada à cena vivenciada pelos beatos na noite passada. Mas outra notícia estampava a primeira página do jornal naquele dia.


quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Deus do Labirinto- Sete Paradoxos de Herbert Quain


Apiedo-me da alma de Herbert Quain, de cujo romance April March, escrito em 1936, nenhuma recordação restou-me que não fosse a tentativa fracassada de afrontá-lo. À guisa de lhe oferecer uma pequena nota de indulgência necrológica, como quisera o maior de seus asseclas, descobri que não se permanece imune à presença de Herbert Quain quando se erra pelas alamedas escuras de Roscommon, cidade que o viu falecer, e para onde acorri à procura de alguns manuscritos do escritor.


No entanto, e sem que pudesse pressentir, verifiquei (decepcionado) que não eram muitos os volumes da literatura quainiana que se podiam divisar na maior biblioteca daquela cidade, um enorme edifício à beira do Rio Shannon, ladeado por construções tombadas pelo patrimônio histórico irlandês. Cedo, não me foi difícil presumir que nem mesmo o hálito frio e ancestral das ruelas acidentadas de Roscommon oferecia o justo conforto à alma experimental do velho Quain: ali, mesmo depois de sua morte fatídica e precoce, sepultado sem maiores insígnias, ele jazia estrangeiro.


Que eu desistisse, pois a obra literária de Herbert Quain se havia fragmentado de tal modo que sequer os antiquários tradicionais da Província de Connacht noticiavam a respeito, disse-me o livreiro da Rua Elmo, procurando me demover da empresa de encontrar os tais manuscritos, já objetos de minha obstinação. Sem saber exatamente o porquê, ocorreu-me a apavorante idéia de que o autor de Statements havia caído no mais absoluto e horrendo esquecimento.


Por um capricho da fortuna, a surpresa me assaltou em County Westmeath, na vizinha província de Leinster, onde um afamado bibliófilo cego que se dizia amigo de Quain, mostrou-me o que eu apenas havia escutado existir: Os sete aforismos da história – texto cujos desdobramentos assinalariam a resposta de Herbert Quain a um de seus críticos mais severos, que se havia ofendido com um comentário seu sobre a “história da arte”, proferido em ocasião inoportuna.


Temendo que os aforismos não resistissem ao próprio esquecimento de seu criador, ou porque não mais pudesse suportar o peso de sua memória, pediu-me o bibliófilo que eu o publicasse, retribuindo sua gratidão com um volume de antiquário escrito nos fins do Século XIX. Eis o texto de Quain:

(Os Sete Aforismos da História - Prolegômenos para um Romance Regressivo, por Herbert Quain)



i. O não-laboratório do historiador é um alcoviteiro, exige um caso de amor secreto entre conceito e evidência, um amasiar-se, um estranho conúbio com as fontes.


ii. O historiador é um nômade agrilhoado.

iii. É dotada de uma estranha gaguez a fala do historiador; ela se deixa tropeçar em antigos pedaços de papel, em fragmentos de gestos, sinais, sintomas que sobrevivem em seu mata-borrão antes de serem sepultados no cemitério da escrita historiográfica.


iv. O gesto do historiador funda uma língua que não se expressa apenas por um vocabulário que lhe seja peculiar, mas por uma sintaxe que o exila das certezas permanentes, que fabrica seu conhecimento menos pela blindagem ou canonicidade de seus apetrechos de historiador do que pela violência que encerra a interpretação de que faz uso.


v. É fundado na violência o conhecimento histórico, pois os cortes que operam seus conceitos eliminam e excluem na proporção em que coligem, colecionam os materiais violentados pela interpretação.


vi. É mesmo esquizofrênica essa relação, pois tanto os conceitos esperam por certos materiais que os legitimem como também se deixam pedir por eles, seja para sagrar ou eliminar as hipóteses de historiador, seja para transformar ou se deixar transformar em novos conceitos.


vii. Não parece haver inocência no gesto do historiador



Todas as advertências recaiam sobre os leitores e vulgarizadores de Herbert Quain, que não admitia haver disciplina inferior à história. Foi necessária uma leitura a contrapelo de uma das oito narrativas de Statements para que eu compreendesse a heterodoxia de seus livros-jogos. O que não pude calcular foi a estranha ironia a que me conduziu o cego bibliófilo, por quem fui agraciado com um livro de 1897, cuja página 215 me fez enxergar o que o velho escritor irlandês queria mesmo dizer com "romance regressivo"...


terça-feira, 23 de outubro de 2007

Parte III

- Luz, câmera, ação!

- Vítor! – Ao chamar desta, eis que surge em cena um garboso mancebo de vestes distintas o que; conservando entre seus dedos destros um charuto apoucado, a testa franzindo em circunspeta atenção, a leveza dos movimentos no girar de sua cadeira executiva, a voz aveludada e grave; personificava a elegância daquela figura. Era a personagem de Armando, Vítor Gomes, um jovem empresário que, dadas suas aparições em cena, sempre causava maiores suspiros nas telespectadoras daquela novela, e conseqüente audiência. Um homem de caráter estimado pelos bons, e leal àqueles que consorciam de sua amizade. Neste momento contracenava com a protagonista da novela, Eulália, uma doce e bela mulher que perdera cedo o pai, e destarte assumia a presidência da empresa a qual Armando... melhor dizendo, Vítor era sócio majoritário.

- Eulália. Chamei você aqui para lhe inteirar de algumas pautas relativas à reunião de agora à tarde com os nossos principais acionistas. Quero lhe perfazer dos perfis de cada um para que possas centrar seu discurso de posse.

Eulália além de sócia de Vítor era muito antes amante, coisa que tentavam esconder aos olhos de todos, não tendo maior fortuna com Regina, irmã caçula de Eulália e mulher de Vítor. Regina caracterizava a vilã da história, se fazia não aperceber o romance adúltero do marido com a irmã, e conspirava sempre à surdina contra a felicidade de seus desafetos.

O relógio da igreja badalava dezoito horas daquela quinta-feira, e Armando já havia terminado as gravações desta semana, estava pronto para viajar na sexta, voltaria aos estúdios da RTA (Rede Televisiva de Altaneira) na terça para completar as cenas finais da novela. Encaminhava-se ao seu Rolls-Royce quando viu Eva se chegar.

- Cada vez que lhe vejo, surpreendo-me ainda mais com tamanha que é sua beleza, minha Eva.

- Armando... nunca se ausenta dessa insígnia de galanteador? Apenada será a pobre criatura que lhe vier desposar! - E Eva falava por conhecimento de causa, pois sabia das inúmeras aventuras do irmão, e das pobres donzelas que este desonrara, dentre as quais estava Bruna, amiga de Eva que namorou Armando na adolescência, vindo a ser traída por este aos olhos de Eva.

- Ora minha irmã, não é minha a culpa de teres se transformado nesta moldura que me alude muito à inocente e pura imagem da Eva de Ana Pardo. Mas me diga a que se deve tão ilustre presença?

- Falar sobre nosso pai. Achei estranha a semelhança das mortes que aqui ocorreram.

- Não entendi. Mortes semelhantes? Falas do senhor Fernandes também?

- Sim. Assim como nosso pai, ele tinha 45 anos e gozava de excelente saúde, embora tenha vindo a falecer de um infarto, mesmo sem um histórico de problemas cardíacos na família. Não tenho certeza, mas creio que exista alguma relação direta.

- Minha irmã, você está querendo me dizer que nosso pai possa ter sido assassinado, e por algum maníaco serial?

- Como lhe disse, não tenho certeza de nada, acredito em assassinato, mas preciso investigar. Vais viajar novamente para aquele lugar que nunca revelas?

- Questão de privacidade. Sabe que se souberem onde estou não me deixarão em paz; é autógrafo aqui, perguntas sobre o fim da novela ali, senhoras mau cheirosas querendo me abraçar... é minha irmã, a boa fortuna também tem suas desvantagens.

Já era noite, a fria e densa névoa ofuscava as ruas de Altaneira, e as luminárias públicas fincadas no pavimento de pedras regulares, o desenho de suas construções, em tudo se fazia presente o modelo arquitetônico vitoriano que fôra trazido neste período pelo colonizador inglês. Na esquina em que cruzavam a Rua 15 com a Avenida do Rio, despontava uma esdrúxula e esquelética silhueta, estava agachada e desnuda, não se podia saber se era homem ou mulher, pois a névoa lhe dava guarita, corrompendo a visão melhor de sua sexualidade, mas se não era uma mulher, usava uma longa peruca, suas mãos de alongado comprimento denunciavam ser esta entidade de elevada estatura. Um estampido ecoa quebrando o silêncio da noite, a criatura corre desengonçada em direção à ponte. Se era realmente alta não deixava transparecer, já que apresentava a coluna arqueada e uma escoliose deveras acentuada, e correndo parecia sempre estar agachada. Outros dois estampidos maiores de espingarda, e agora se podia vê-la um pouco melhor, pois a iluminação da ponte desvelara parcialmente a criatura, foi quando alguns moradores que a perseguiam puderam vislumbrar.


quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Parte II

Jacinto era o filho mais velho de seu Batista, e também o mais apegado ao pai, que desde logo tratou de colocar a loja da família aos cuidados do filho. Jacinto aprendeu tudo com o pai; balanço, comerciar com os fornecedores, o marketing de seus produtos, sempre ressaltando o preço mais em conta da região... enfim, seu Batista era só orgulho com Jacinto.

Certa vez, seu Batista se escondera, dizendo a Jacinto que iria ao banheiro e que este cuidasse da loja até que voltasse, entra neste momento um senhor carrancudo e muito esnobe, seu Fernandes – isso mesmo, o que falecera outrora nesta história – destratava quem pudesse ver, e não era novidade desfazer das pessoas usando toda sua arrogância.

- Quero comprar a loja! Quanto é? – Seu Fernandes encenava abrir a capanga de couro preta, enquanto gozava da cara do garoto, que de pronto lhe respondeu:

- Desculpe moço, mas a loja não está à venda. Não colocamos nenhum anúncio para tal. Nossa loja é a mais completa da região, e é preciso muitas posses para comprá-la, se o senhor tiver algum dia esse dinheiro, tratarei de lhe informar da venda. Enquanto Fernandes ficara catatônico diante do prodigioso e atrevido garoto, Batista dava socos na parede de alegria ao ver seu filho de 11 anos desbancar o homem mais boçal da cidade, coisa que sempre quis fazer, mas sua política de trato ao cliente o impedia. Vendo sair o furioso Fernandes, Batista sai da “toca” e abraça o filho como quem erguia a taça Jules Rimet. No momento em que abria a loja naquela manhã, Jacinto lembrava com lágrimas nos olhos desse momento com seu pai que falecera no dia anterior.

Ele não aceitava a idéia do pai vir a falecer tão cedo, 45 anos, e de infarto, um homem que dificilmente era acometido por qualquer enfermidade, pois sempre se preocupou com a alimentação; nada de gorduras, comidas oleosas ou sal além da conta, e era de praxe um rachinha de futebol nos fins de semana para manter o vigor físico. Talvez por trocar tiros com algum delinqüente que viesse a afanar Umatinga, ou deglutir inadvertidamente alguma droga que corrompesse sua saúde, qualquer outra "causa mortis" poderia ser mais assimilável na cabeça de Jacinto que infarto. Não... era demais para um filho que sempre invejara a saúde do pai. A mãe já tinha ido também muito cedo, um acidente bestial que envolveu o filho de Fernandes, Osvaldo Júnior. Este vinha bêbado em alta velocidade em seu pick-up no centro da cidade e acabou por atingir dona Marta, esta ainda minguou forças para se despedir do marido e dos filhos no hospital antes do seu último suspiro.

JR, como era conhecido, fôra condenado, a pena não tão severa, apenas ajudar na limpeza das ruas da cidade pela manhã, quando ainda não se via cidadão algum trafegar, e por tanto, livre de maior desonra. O advogado argumentou que: “O jovem não se encontrava bêbado, pois tão logo houve o acidente, foi consciente, e incontinenti prestou socorro à vítima lhe chamando ambulância, e isto mostrava não só a sobriedade do rapaz, bem como sua boa índole, sem a qual não teria prestado socorro à dona Marta, que Deus a tenha”. Todas aquelas palavras eram insultos à imagem de Marta, e amiudado o coração, seu Batista recebeu o resultado da condenação por meio de Eva, pois não teve forças para seguir presente no julgamento. Todos ali sabiam que tão logo ocorreu o acidente, JR se encarregou de telefonar para o pai, que antes de qualquer outra atitude, tratou de evocar os serviços de seu advogado, Dr. Valmir, este foi quem desdobrou todas as questões lícitas e ilícitas para conduzir o caso de homicídio doloso eventual à um simples acidente de trânsito.

Eva veio conversar com Jacinto, dizendo-lhe que Fernandes havia falecido naquela manhã.

- Não tenho certeza meu irmão, mas creio que a morte de Fernandes ainda não está totalmente esclarecida... - Eva era uma garota que se destacava não só por sua beleza, mais ainda era de uma inteligência ímpar, o que tornara comum lhe prestarem honrarias por suas atuações frente aos casos competentes à polícia de Altaneira, o que não causava muito gosto a seu Batista, ainda não lhe digeria bem a idéia da filha lidar com algo tão perigoso como a polícia, mas que a apoiava em tudo, e sempre lhe perguntava sobre os casos, de como ela conseguia resolvê-los, ficava feliz pela astúcia da filha, que era acima da média, ao fim lhe dava os parabéns, mas nunca se esquecia do “tome cuidado minha filha”.

- E nem a de nosso pai, Eva. Completava Jacinto, compenetrado em seu raciocínio.


quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Parte I

Chovia pouco naquela tarde, o cheiro que vinha do mato molhado emanava fortemente pelo interior da casa de alvenaria, construída em meio à vasta vegetação da fazenda Umatinga. Atrás da casa passava um rio, o qual podia se ouvir suas águas desabarem por sobre as pedras da cachoeira, escondida a um quilômetro dali por um sinuoso matagal que ao rio beirava às margens. Lugar de um sol ameno na parte da manhã, mas que só não escaldava mais à tarde graças à aragem úmida e gélida da serra. Armando estava sentado à varanda, se balançando na cadeira de seu pai, senhor Batista Dantas, que havia falecido naquele instante.

- Armando! – Corria alardeando Malvina, esposa de seu Rufino, moradores vizinhos de seu Batista. – Seu pai está caído ao pé da cerca! - Num súbito solavanco ascendeu Armando da cadeira, esta colidiu bruscamente à parede de pedra. Correu se desfazendo o fôlego, até que a 300 metros encontra seu pai da forma como enunciara Malvina.

Jacinto estava inconsolável. A mão de Eva agarrada a dele tentava torná-lo da dor, mas na medida em que a terra cobria a imagem rústica e tenaz de seu Batista, que agora se unia em túmulo à esposa, o pranto se fazia mais presente em tão mal-acabado semblante . Armando, de longe, se ria por dentro com a ironia de um Machado, mas como bom ator que era, fazia bem o gênero “sofre solitário”. Tenho certeza que conseguiu enganar muita gente ali, pois contei uns dez que lhe foram prestar os pêsames com sincera ingenuidade, mas Eva...não, essa conhecia muito bem seu irmão.

- Parece não ter se abalado muito com a morte de nosso pai... – Eva não era de guardar o que sentia, e tão logo foi ter com Armando que a olhando com uma sinistra expressão e um meio sorriso, lhe respondeu:

– Não sabe o que sinto, não está aqui para saber. – Apontava a cabeça, guardada pelo belo chapéu preto. Saiu dali e foi direto para seu luxuoso carro esporte, enquanto Eva o olhava ir embora mais uma vez.

- Detetive Dantas!

- Sim? - Ela definitivamente era uma bela mulher. Seu longo e encaracolado cabelo ruivo e a pele alva como a neve, que realçava o delicado lábio rubro, faziam de Eva a mais linda policial de Altaneira, um desejo comum a todos dali.

- Trouxe aqui as fotos que me pediu, senhora.

- Muito bem, Ramos...agora me leve até o corpo, quero vê-lo!

Aparentemente nada levava a crer que se tratava de um homicídio, a não ser a porta que fora arrombada e alguns pertences levados. A vítima, caída à porta da geladeira que se encontrava entreaberta, sem sinal de espancamento ou qualquer ferimento, parecia ter sofrido um ataque cardíaco.

- Eu estava dormindo, e só fui dar conta de que ele tinha saído da cama de manhã cedinho, foi quando o achei assim, meu Deus! Fernandes, não! – Relatava chorosa para Eva a pobre viúva. Disse esta também que o marido fazia consultas regularmente com o médico da cidade, Dr. Boris, a quem Eva foi inquirir.

- Tem certeza? – Pergunta perplexo o doutor.

- Sim! Sua esposa também achou estranho ele ter falecido desta forma. O homem era saudável, e com sua idade, 45 anos, não é comum sofrer de infarto. – Afirmou Eva a Boris.

- Posso lhe garantir que o senhor Fernandes era um homem de saúde invejável.


sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O flagelo dos afectos (resposta a Jaromir)



Prezado Jaromir,


De fato, você está prenhe de razão quando se mostra violentamente contra os vulgarizadores desta prática que, embora ainda seja compreendida por muitos como manifestação de uma "suposta" erudição, tem mesmo sido o solo onde germinam alguns filósofos que se arrogam “funcionários da verdade”. Mas os "maus filósofos" ainda serão aqueles que incorrerão no pecado de não fazer funcionar sua usina de conceitos, tornando-se reféns do pensamento alheio, ou agenciando constructos cujas bordas não coincidem. Neste sentido, antes de ater-me ao que você classificou pejorativamente como “citação”, permita-me fazer uma pequena digressão acerca da utilidade (para o pensador) do aparato conceptual no processo de "fabricação do conhecimento", ainda que me detenha aqui apenas na teoria, na filosofia propriamente, deixando arte e ciência à margem da discussão, por ora. Não é difícil constatar que o próprio Nietzsche, já no século XIX, levantou-se furioso contra este tipo de pensador do qual tratamos acima, que parece “funcionar” somente aparado em próteses de saberes, e cujas engrenagens conceituais parecem não possuir as dobras que lhes signifiquem. Para Nietzsche, com o perdão da citação, “os filósofos não devem mais se contentar em aceitar os conceitos que lhes são dados, para somente limpá-los e fazê-los reluzir, mas é necessário que eles comecem por fabricá-los, criá-los, afirmá-los, persuadindo os homens a utilizá-los. Até o presente momento, tudo somado, cada um tinha confiança em seus conceitos, como um dote miraculoso, vindo de algum mundo igualmente miraculoso”. Perceba como o filósofo alemão, recusando a maiêutica socrática, a representação platônica, a “burocracia do pensamento ocidental” e disparando quase contra todos os que lhe antecederam, não prescinde da ferramenta mestra do filósofo: o conceito. Mas como nascem os conceitos? De que estranho mundo ou ermas regiões ele vem? Que estranhos nomes lhes servirão de batismo? Há céu para os conceitos, para que ele nos caia como corpo celeste sobre nossas cabeças que os esperam inteiramente prontos? Devemos nos tornar prisioneiros do conceito para engessar o sentido da razão e não aceitar o “sopro de Hermes” que a muitos conforta? Onde mora em nós a tirania e quem a pratica? Somos nós ou o quê de nós? O que estou tentando dizer é que considero indubitavelmente louvável sua posição de ponta de lança do pensamento, de desbravador ou escrutinador-deflorador da “realidade”, atitude rara de ser encontrada entre pensadores brasileiros, para sempre condenados ao “obrigatório ritual das citações”, que empanturram as folhas de papel de notas de rodapé alusivas a medalhões, produtores de conceitos dentro de circunstâncias e centros inteiramente diversos dos nossos. Portanto, vestir um escafandro ontológico e mergulhar nas profundezas oceânicas do pensamento para violentá-lo e ou gestá-lo exigirá do filósofo um acervo conceitual e um plano que lhe dê existência autônoma. Do contrário, o que será produzido será também enterrado no cemitério do discurso, o que redundará numa “prostituição da língua”, agora reduzida a um “falar mal” que se avizinha à prática do “jornalismo do espetáculo”, (falando como Guy Debord), vazio de conceitos e rico em impropérios que fazem a língua descer às suas regiões de mais baixo nível, agora ficando com Deleuze. O municiar-se de conceitos, seja importando-os de um pensador ou criando-os, servirá para evitar um “planetário de erros” e (re)definir posições. Por exemplo, o que você está chamando de citação, de academicismo, de colagem? (agora estamos retomando a questão). É possível gestar conhecimento sem fazer com que tais palavras efetuem um salto do termo para o conceito. Quando morre o primeiro para nascer o segundo? Serão os jornalistas de espetáculo operários do conceito? Sinceramente, creio na pertinência das suas questões e acredito serem elas necessárias para não reduzirmos o ofício do pensador a uma “fábrica de próteses”. No entanto, há uma pretensão no seu texto que incomoda não pela provocação, mas pela ingenuidade: como é possível escrever um texto sem efetuar colagens e citações? É, objetivamente, possível falar-se em texto genuinamente individual? De quem são os códigos dos quais você se apropria para criar seu discurso? Quando você os inventou? É possível negar que tais códigos fazem parte de um suporte estrutural muito mais complexo do que se pretende chamar de individual, sendo passível de uma inteligibilidade apenas se atreladas às dimensões do cultural e do social, categorias impossíveis de serem pensadas senão apenas na esfera da coletividade? Mikail Bakhtin, Roland Barthes, Jacques Derrida, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Umberto Eco, entre outros, há muito já mataram essa charada: todo texto é uma teia de remissões, sejam elas explícitas ou veladas. Barthes chega a usar uma passagem dos evangelhos para simbolizar a pluralidade de vozes que podem emanar de um texto: “legião, porque somos muitos”. Um exemplo emblemático que serve para ilustrar o quanto a própria “literatura pós-moderna” vem tematizando esta questão está num romance que você talvez já tenha lido. Estou falando do famigerado “O nome da rosa”, de Umberto Eco. No romance, não é difícil localizar o lugar do pastiche. O monge detetive chama-se Guilherme de Baskerville - cidade onde se passam diversas histórias de Sherlock Holmes. O discípulo de Guilherme atende pelo nome de Adso, versão latinizada de Watson, nome do companheiro de Holmes (e não nos esqueçamos de que "O nome da rosa" é também um romance policial). A chave para a compreensão da história gravita em torno de um livro, o segundo da Poética de Aristóteles, que se encontra guardado numa biblioteca labiríntica cujo responsável é um monge cego chamado Jorge. Não será difícil depreender que há aqui uma referencia quase explícita ao velho Jorge Luís Borges, que também era cego e escreveu um conto intitulado “A biblioteca de Babel”, sendo também fascinado por labirintos. Os exemplos abundam e prefiro não mais me delongar... O fato é que me solidarizo com suas idéias, embora acredite na necessidade de não mitologizá-las. Gostaria que você continuasse e me enviar suas inquietações. Sinceramente, não conheço ninguém tão instigante quanto você! É provável que eu não concorde com todas as suas posições teóricas, epistemológicas ou heurísticas, mas seguramente eu as admiro.
Abraço afetuoso,
Sr. Allworthy.
PS.: Minhas mais sinceras escusas, meu nobre amigo, recusei-me a escapar do velho tempero acadêmico!
PPS.: Em outra oportunidade, tentarei mostrar como tudo isso pode ser "outra coisa" em se tratando de arte, pensamento mítico e ciência.