terça-feira, 30 de junho de 2009

tc nu pc



AMANTE LATINO say: oi dininha!

dininhabb say: oi qridinhu!

demorô tantuuu :(

AMANTE LATINO say: tava nu banhu

dininhabb say: humm!!!

deve tah molhadinhu agora rsrsrsr

AMANTE LATINO say: qria q tivesse aqui pra vc mim inxugah

tava pensano em vc

dininhabb say: olha.. eu tenho namoradiu

AMANTE LATINO say:q q tein? eu tb tenhu

dininhabb say: vc tem namoradiuuu?!!! rsrsrsrsrs

AMANTE LATINO say: vc eh taum ingrassadinha

dininhabb say: x***

pq tah demoranuuuu????

fiko cum raiva :(

AMANTE LATINO say: vc fiko cum çaudadi di mim rsrsrsrs

dininhabb say: aaaahhhh tu si axa neh!

AMANTE LATINO say: q eh iço dininha!

vc çabi q gosto muito de vc

dininhabb say: aaaahhh!!! rsrsrss

vc tah eh mim tirano

pença q nu sei gaiatuuu****

AMANTE LATINO say: to naum

pq num vein pra cah?

qria tantuuu vc qui cum miguuu***

pra mim inxugah

dininhabb say: lipêeee vc tah eh loco msm mininu

qria q a nandinha viçi nois cumveçanu aqui

qria soh v tua krade bobo!!!! rsrsrsrsrs

AMANTE LATINO say: ela num tah aqui!!!

tah viajanu cum a mae

podi vim minina

vein naum?!!!

dininhabb say:: aiiinnn lipêeee!!! :(

AMANTE LATINO say: si vc vim eu dexo vc mim bjah ondi vc quizeh

ondi vc keh mim bjah dininha??

dininhabb say: aiiinnn!!! :(

AMANTE LATINO say: q foi?

vc num keh mim bjah?

dininhabb say: neh iço naum

a nanda eh minha miga neh

num poço fazê iço cum ela :(

AMANTE LATINO say: tah bom intaum

tchau

dininhabb say: isperah

tah falano ceriu msm?

AMANTE LATINO say: uhum

vc vein?

dininhabb say: aiiin!!!!

AMANTE LATINO say: vein oh naum?

dininhabb say: tah bom mininu eu vôh...

AMANTE LATINO say: SUA PIRANHAAAAAA!!!!!!!

TRAIRAAAAAAAAAAAA!!!! SAFADAAAAA!!!!!

CAIU NA MINHA SUA IDIOTA!!!!

dininhabb say: nandinha?

eh vc?

eu num ia naum migaaaaa

tava soh brincano mais num ia

juro miga!!! :(


sábado, 20 de junho de 2009

Entre quatro paredes



- Cá Vivi! Senta!
- Ai Vavá, minha mãe vai mim MA-TA!
- Vem logo, doida! Tua mãe num tá qui naum! Fica quéta!
- Vai demorá muito...????
- Cê vai ficá falano?! Assim num vai dá...
- Si a Vevé disconfiá de nois vai direto contá pra mamãe.
- Num tem como ela sabê! Agora essa...
- Eu peguei ela mexeno nas minhas coisa, Vavá! Tá pegano no meu pé porque tá desconfiada di nóis aqui.
- Calma, amôzinho... olha, relaxa qui vai sê melhor pra nois. Qui adianta vim pra cá e ficá pensano nessas coisa? Nem tua mãe, nem tua irmã num sabe di NA-DA! Num sabi qui num fumo pro colégio e viemo pra cá. É muita gente lá, como vão lembrá di nóis?
- É... você tem razão. Eu devo tá lôca mermo... mais num vamo ixagerá! Assim qui terminá a genti corri pra casa, e é só uma vez, tá!
- Mais tu é medrosa, viu! Qué imbora agora?
- Nã, naum! Já qui tamo aqui, vamo aproveitá, né muié!
- É assim qui si fala, miga! Depois a genti pega a matéria c'as menina. Agora cala a boca qui vai cumeçá o cine!
- Qué minha pipoquinha?
- Hihihihi!!!




domingo, 14 de junho de 2009

O que não tem beleza, o que não vê arte


Acordei cedo naquele dia claro, não por querer... - ACORDA, vagabundo! - Olha, “vagabundo” tudo bem, não tenho como rebater o que é fato, o problema é o “ACORDA”... pra que ser tão colérico, inóspito, hostil? Eu não sei qual é a desses caras, mas não serei eu quem discutirá com um milico truculento o meu direito de ir e vir neste país, até porque ele só entende de ordem e desse tema me abstenho de discutir.

A noite não fora tão prazerosa, muita gente na rua, numa sinfonia dissonante de passadas, trotes e arrasta-pés; tênis de cores refletivas, tênis surrados, sapatos lustrosos, outros nem tanto, pernas nuas em sandálias de cores vivas, pernas brancas, amarelas, negras, manchadas, sardentas, anêmicas... uma infinidade de transeuntes de rumos vários, mas todos passavam por aqui. Acho que não me viam, cheguei a questionar minha existência, mas não estava morto, já que ainda podia sentir Laila me lamber a topada do dedão do pé.

Mendigos e cadelas têm muito em comum, a começar pela indiferença que sofrem. Cachorro todos querem, mas nasce uma cadela as pessoas já dizem logo; “Cadela num presta, depois quer ficar vadiando por aí e parindo direto”, e tratam logo de “dar fim”... sei o que Laila sente, pois sofro do mesmo calvário. Já tive pais e irmãos, mas por representar mais um prato à mesa hoje meu lar é esta antiga praça.

Bom, pelo menos me deixaram esta garrafa de vodka meia-vida; um remédio pra aliviar as tensões da realidade fria sorvedora dos sonhos quentes; ainda existem boas almas nesse mundo. Agora tenho que ir, Seu Guarda tá me dando ordens de despejo, a praça vai passar por uma reforma e não serei eu um dos adereços de ornamentação. É... o feio só é belo para os românticos amantes das artes, porque os olhos só vêem beleza no feio quando não sentem o cheiro dele tão de perto.

- Já acordei, Seu Guarda!


sexta-feira, 5 de junho de 2009

Procrastinação literária


Sentou-se à mesa com a ânsia de dias sem inspiração. Desposou café com cigarro numa sequência degradante que por vezes é quebrada. Já estava de fogo pra tomar coragem, coisa que parece não ter surtido o efeito pretendido. Não, nada vem. Algumas frases esparsas à cabeça, nada que pudesse desenvolver uma lógica léxica. Isso o enfurecia ao ponto de espasmos de socos serem desferidos contra a mesa vez por outra. Suor, ofegos, inquietação, sintomas de desespero.

Ensaia desabar em choro como a um infante que a fome arrebata quando delicadamente batem a porta, recompõe-se e vai atender. Sua vizinha tinha os cachos castanhos claros. Nariz afilado em meio a dois grandes olhos sempre firmemente fitos aos dele. Os lábios rosados trêmulos em desejo. A pele homogeneamente bronzeada sob medianos pelos dourados que a coxa em saia justa sensualmente expunha.


Ela voa em sua direção. Agarra-o num beijo sufocante. Camisa azul de gola é rasgada, três botões ao chão. Camiseta branca de renda é rasgada, seios eriçados à mão. No sofá-cama vermelho a batalha deu início: tapas no rosto, outros no clítoris, outros nos seios; chupadas na língua, outras na glande, outras nos seios. Ela cavalga imperiosa sobre o amante rendido até que cai de quatro por ele. Doeu até vencer o esfincter, o azeite não fora suficiente, mas o gozo lhos uniu forte até o despejo da felicidade conquistada no rosto sôfrego dela, como que demarcasse seu o território da fêmea inválida. E ela se vai.

Novamente os dedos à máquina, mas nada, nada o vem. Cigarro-café, cigarro-café, cigarro-café, cigarro-cigarro, café...cigarro. Descerra as cortinas e vai até a varanda. A noite está maravilhosa, a lua nunca esteve tão nítida naquele céu escuro e limpo. Lua cheia de mistérios, de elucubrações crescentes e de minguadas imperfeições. Concorrem-lhe as estrelas com pequena robustez, mas unidas em propósito fazem iluminar até os corações mais endurecidos.

Sentou-se à mesa sem maiores cobranças. Divorciou café do cigarro que haviam acabado naquele momento. A lucidez já o vinha após noite enfadonha de bebidas e sexo. Algo estava claro... era o dia que surgia com seu sol espetando raios de luz e calor sobre suas costas cansadas. Mais um soco à mesa e vai pra cama. Fadiga, desorientação, sono. A editora liga, a velha cobrança de sempre, o sufoca, mas não será desta vez que conseguirá terminar o livro, quem sabe esta noite. Quem sabe...



segunda-feira, 24 de março de 2008

De Volta ao Lar


– Então conserva o mesmo cheiro de mofo... – falou consigo Lúcio com os pés no piso de taco da velha habitação. – Onde está você? – esse era o motivo de sua volta àquele lugar.

Lúcio é um senhor estranho... alguém o queria num asilo, um outro o tratava indiferente – Aquele ali! Deve ser Maçom – condenava um decrépito cidadão. Mas uma grande maioria sente que algo ocorrido no passado possa ter a ver com sua autista animosidade. Passado este não compartilhado com os moradores desta região, haja vista Lúcio ter aparecido na cidade ainda jovem, sem lenço, sem documento.

“Bom, ele gosta de ser chamado de Sr. Férrer, mas não existe família aqui perto com este sobrenome. Ele vive sozinho desde muito novo!”, comenta sobre ele um casal contemporâneo seu. Não se teve relatos de algum amor ou aventura com qualquer criatura que seja. Nada se sabe sobre parentes. Ninguém nunca o foi visitar. Não! Nada! Ninguém! – Estranho... – era um coro reflexivo e uníssono da sala onde estávamos.

Não tem amigos, é totalmente auto-subsistente. Tem uma horta, planta arroz e feijão em pequena escala, animais de abate tem vários, dentre galinhas, patos, capotes, até mesmo um pequeno lago donde pesca seus peixes. Raramente compra algo no açougue da cidade.

– Olha senhor, ele sempre faz a mesma coisa todos os dias! Logo depois de fechar a sua locadora de livros (Quando chegou à cidade foi arrebatado por um grande colecionador de livros que faleceu há anos deixando tudo pra ele, inclusive casa e dinheiro em banco. Na época o pequeno Lúcio vivia largado, dizia que não tinha pais, nem família, e por isso, as ruas eram o seu lar. Foi este colecionador que lhe deu cultura e um trabalho de auxiliar na recuperação de livros), umas cinco da tarde, viaja pela mesma estrada. Por aqui tem quatro estradas com destinos diferentes, mas ele sempre viaja por essa mesma, todos os dias. Volta um pouco depois do cair do Sol, coloca a mesma música... um rapaz aqui entende dessas coisas que ele escuta, disse se tratar de um tal Villa Lobos. Mais tarde sai de casa trocando as pernas e com uma garrafa de vinho vagabundo na mão, gritando: ONDE ESTÁ VOCÊ?, repetidas vezes – relatou-me uma afobada senhora.

– E vocês nunca tiveram a curiosidade de segui-lo pra saber o que faz todos os dias naquela estrada? – inquiri os moradores enquanto pegava do cheiroso café distribuído a todos pela representante do grupo, Senhora Nêres, com quem havia eu conversado e negociado minha vinda a esta cidadela. – O seguimos algumas vezes sim! Mas quando chega numa parte fechada da estrada, uma velha linha férrea, ele desce do carro e se embrenha pela mata à dentro. Ninguém nunca teve coragem de entrar na mata, e nossos olhos se despedem dele – conta-me Nêres decepcionada, sentando ao sofá depois de me servir a xícara.

No terceiro dia de trabalho (Passei todos esses dias escondido na casa de Nêres, nosso investigado não poderia saber de mim), Lúcio fôra mais longe. Distanciava-se, e eu não podia o perder de vista. A mata era alta, o que ajudava na camuflagem, mas me deixava com uma comichão dos diabos.

– Então conserva o mesmo cheiro de mofo... – ficou imóvel por um instante, parecia perceber algo. Depois caminhava de um lado para outro da casa. – Onde está você? – estava ele eufórico. O cheiro de mofo era irritante. Pra segurar o escape de um espirro, fechei as narinas ao passo que também meus olhos incontinenti, o bastante para o perder de vista... – Então aí está você! Esperei bastante por este momento – Lúcio estava a minha frente. Não era mais aquele velho enterrado num mausoléu profundo de angústia e sofrimento confino, a isto dava ares de vitória e uma felicidade expressivamente doidivanas no olhar, um brilho macabro e, ao mesmo tempo, a mim familiar.

Endereço-lhe meu indicador confuso e trêmulo – Eu conheço o senhor, Sr. Férrer... – a meio caminho titubeio entre pergunta e afirmação. – Sim, sabes bem quem sou, não tenho dúvida alguma! E sabes também que não foi o acaso que o trouxe até mim. Livre arbítrio, este sim o trouxe – Nunca senti um embrulho no estômago como o daquela noite quando de sua investida em me fazer lembrar: – Velha estalagem, piso de taco... O cheiro de mofo... Sinta! – Uma pausa em sua fala e... – Onde está você? Diga! – As lembranças me vêm – Meu Deus! Não... eu sonhei com isto... – contrição e lágrimas me tomam num desesperador momento. Um grande pesadelo de minha infância, trauma apagado da lembrança até então, trazido à tona. Concreto, real!

– Sim! Onde estás agora, a velha estalagem, já estiveste antes! E não! Não era um pesadelo. Contenha-te! Sabes de tua culpa!

– Eu era apenas uma criança! Como um garoto de nove anos pode ser responsável por seus atos? Isso não é justo! Não...

– Justiça? O que sabes de justiça? Tenho julgado os homens por toda minha existência! Não eis tu de entender os desígnios de Javé! Teu destino esteve o tempo todo em tuas mãos! Ele vos deste isto, livre arbítrio! Sentes o cheiro? Sei que sentes... Toda uma família, tua família... Cruel foi seu destino. Não negues de maneira alguma tua natureza! Queimaste todos enquanto dormiam e os enterrara sob este taco mofado para que não sentissem o cheiro da carne queimada... Carne de tua carne! Sangue do teu sangue! Agora teus restos farão compania aos deles.

– A cidade... É ilusão? Também tínhamos horta em casa! Meu pai adorava livros, tinha muitos. E Villa Lobos?! As Bachianas... ele ouvia sempre! O vinho... era a bebida preferida de minha mãe! Fez tudo isso pra que eu lembrasse, senhor Lúcio Férrer?

– Certamente que sim! Mas, por favor, podes me chamar de Lúcifer!


terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

A Farra


O banho conseguiu lhe tirar uma parte significativa da noite virada, mas o semblante de Jamil ainda denunciava o desgaste; bebidas, mulheres... não mensurou ao certo a quantidade, nem mesmo a qualidade da farra.

O quarto se assemelhava muito à devastação deixada por um assaltante; roupas por todos os lados, dentre blusas, calças jeans, cuecas, tudo ao chão. Pega de uma cueca, short jeans, camiseta e um tênis... o perfume! Agora está pronto. Esbarra numa rede armada, pondera descanso por um momento, mas precisa ir, estão lhe esperando, renuncia o fracasso e vai, afinal é carnaval.

Senta-se no banco de trás do carro, a menina lhe pega forte num beijo com textura de gloss, ânsia de vômito... arranha-lhe o peito com as garras inquietantes de uma felina. Sedenta e perspicaz agarra o volume vacilante de seu short impudico, são suspiros e manhas satirizadas pelos amigos dentro do veículo.

O velho Chevette sai, a pista vai se estreitando a cada acelerada. Os ébrios se divertem e o consciente no passageiro se apavora. São gritos de “é carnaval” de um lado e “pára, pára” do outro. Jamil, sua garota e um amigo; sexo e nimbos de maconha em meio às luzes dos carros na outra mão da avenida chuvosa. A noite promete...

A atmosfera dentro do carro se torna nauseante. Jamil estende a mão direita à boca em tentativa frustrada de abafar o fluido fedegoso que começa a jorrar sem parar sobre o rosto do motorista. O cheiro forte provoca o refluxo dos demais. Todo o carro é tomado por uma mistura gástrica de dias de carnaval.

Os pés deslizavam nos pedais enxurrados pela gosma gástrica do motorista atordoado. Invadem a contra-mão da avenida em direção à ponte. A 100 por hora atingem o rio. Fogem pelo pára-brisa estilhaçado, desabam à mata ribeirinha e dão exaustivas gargalhadas. De longe se pode ouvir a música na avenida. Silêncio de todos pra ouvir: “atrás do trio-elétrico só não vai quem já morreu”... – Vamos, vamos! – Grita a garota hipnotizada. Jamil tenta se levantar, quer correr pra festa, mas não sente a perna esquerda. Na pressa de se salvar, lacerou o membro no pára-brisa, e agora via seu sangue cuspir da veia femoral sem cessar. Grita agonizante pelos outros que não lhe ouvem, foram todos atrás do trio-elétrico, e Jamil... já morreu.


terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Parte V

“DR. BORIS DESAPARECIDO”

E a notícia se apresentava desta forma: “O clínico geral Boris Mictian está desaparecido desde a noite passada. Ele fôra visto saindo de seu consultório por volta das dezoito e quinze, como de hábito, e de lá seguiu a caminho de casa, mas a sra. Mictian disse não ver o marido desde sua ida para o trabalho naquela tarde, a treze e quarenta...”. Dizia também o jornal que transeuntes notaram um aspecto visivelmente perturbado no médico, pois caminhava incontinenti e a palidez em sua tez já alva, aludia muito a sua apreensão.

Eva repousava o jornaleco sobre a mesa do café e já se encaminhava à delegacia quando lhe surge à frente Bruna. Tinha algum tempo desde a última vez em que se viram. Bruna se formara dois anos antes na Faculdade Estadual de Farmácia até voltar à Altaneira e trabalhar no ambulatório como auxiliar de Boris. Tinha uma grande admiração por Eva, muito pela beleza, e mais pelo brilhantismo de nossa detetive, nas provas na época do colegial sempre granjeava as melhores notas.

Como já dito nesta narrativa, eram muito amigas, mas o tempo e suas díspares atividades as levaram naturalmente ao distanciamento. Destarte era inesperada uma visita de Bruna à Umatinga, melhor dizendo, à Eva. Dizia estar intrigada com a onda de infartos, queria saber da opinião de Eva.

- Soube do doutor Boris? – Inquiria Eva com uma frieza que notavelmente refletiu no comportamento de Bruna. Esta empalideceu e gaguejou três vezes até conseguir responder.

- Não... Eva, sou suspeita de algum crime?

- Desculpe, essa história está me cansando. – Olhava meigamente para a amiga, numa mescla de saudade e desconfiança. - Está na primeira página do Panacéia, doutor Boris desapareceu.

Caldas ficava a 36 quilômetros de Altaneira, um pequeno distrito onde se encontrava a Ordem das Carmelitas. Beatrice tinha 16 anos incompletos quando resolveu se devotar ao rigoroso claustro da Ordem. A irmã, Bruna, era expressamente contrária à idéia na época, mas depois foi admoestada com freqüência por Beatrice, persuadindo-lhe em reconhecer seus reais votos de renúncia.

- Estou certa de que ela tenha escolhido com muita maturidade seu caminho, mas não queria minha irmã afastada da família assim. – Respondia à Eva sobre o paradeiro de Beatrice enquanto tomava mais um gole de café na padaria. –Lembro-me dela partindo pela janela daquele ônibus, estava firme de sua decisão, e sorriu para mim enquanto eu me derretia em lágrimas por ela.

Beatrice era uma garota que distava muito dos padrões de beleza vigentes. Usava óculos desde os 6 anos devido à miopia, na adolescência adquirira escoliose, talvez acentuada por sua estatura que já aos 14 anos era maior que a de Bruna aos 17. Isso tudo somado a algumas muitas acnes que deformavam seu rosto, rendendo à pobre jovem vários apelidos degradantes, motivo de sua penosa introspecção.

Bruna ouviu de um dos pacientes que o Padre tinha sido assassinado por uma pessoa fantasiada, e que Eva encontrara frascos de fármacos.

- Princípio ativo, Heparina Sódica. - Identificava Eva à amiga. – Além de álcool que utilizou para apagar quaisquer provas de identificação. Não foram encontradas digitais nos frascos.

- Essa coisa sabe muito bem o que está fazendo. – Aludia Bruna à criatura.

- Detetive, encontraram o doutor Boris.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Lembranças da Dor


O relógio branco e redondo marcava cinco e quinze da manhã, e as cortinas dançavam à melodia uivante dos ventos. Acordei desprotegido do frio naquela quinta-feira. Meus olhos timidamente descerravam aos raios matutinos. Já tinha dormido pouco na noite passada, as dores não cessavam e agora o Sol me queimava a face gélida. Esqueceram de fechar as janelas. Ficaria deitado ali por mais tempo.

Olhei pro lado e lá estava ela. Eu poderia amá-la? Ela dormia tenramente enquanto minha vista passeava por todo seu corpo jovem. Minha fixação naquele momento por seu seio era algo patológico, a luz lhe mostrava por baixo da fina camisa de algodão. Somente naquela manhã pude perceber de sua beleza, até então era só mais uma que ao meu lado compartilhava dor.

Peguei do espelho na cabeceira da cama, como fazia toda manhã, e percebia quanto o tempo me vinha maltratando, mais choros e soluços, era assim toda manhã.

Lembro do passado, de como eram boas as férias do colégio. Beto levava todos pra passar a primeira semana no sítio de seu tio Valter. Era mágico aquele lugar. Além das verdes matas, a casa tinha um clima nostálgico da época do cangaço, tudo cheirava a couro. Logo na entrada um gibão de vaqueiro ornava a parede da sala. Os tamboretes eram feitos de couro de carneiro, e ficavam na varanda. No quintal, galinhas, patos, capotes, o velho Dog amarrado ao pé da serigüela que latia sem parar à presença de alguém e o melhor de tudo, o peru. Eu me encantava com aquele bicho, era só assobiar que ele respondia, “Aglugluglu” e depois arrastava suas asas pelo terraço. Só mesmo aquele peru pra me tirar uma lasquinha de alegria...

Seu rosto era de uma beleza simples, delineada. O nariz era o que tinha de mais singelo, emoldurado por suas maçãs rosadas. Senti meu coração, algo dentro de mim estava vivo, ascendia um sentimento já há muito esquecido. Olhava saudoso pra aquela jovem. Eu a amaria zeloso, cuidaria de sua ingenuidade, de sua meninice, seria seu amigo, seu pai, seu amante. Foi assim com todas que um dia amei.

Queria que ela ficasse por mais tempo, um sentimento egoísta talvez, mas precisava dela ali do meu lado, eu a queria muito. Sei que iria embora, e deixaria saudade. Só saudade, não doaria um pouco de atenção, não beijaria minha boca enrugada, não sentiria seu corpo nu cair por sobre o meu. Sei, sei, sei! Que tortura!

Minha vida perdia o sentido. A cada oxigênio inspirado, a cada feixe de luz que em minha vista viesse incidir, a cada toque frio da amanhã, a cada unção de dor, era sempre a mesma pergunta: Ainda preciso disso? Tenho que dar fim a essa dor! Não a suporto mais.

Retiro a máscara, insígnia de minguada vida. Asfixia. Enfermeiras tomam meu leito moribundo, era um mar de branco, e em meio a uma onda alva que pendia abaixo a vi acordar. Despedi-me dela pra sempre, desejei-lhe melhoras, que a dor que sentia não fosse da ordem de meu câncer, foi quando vi seu meigo sorriso pela única e última vez.



segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Parte IV

- Senhora, encontrei isto no local. – O local a que se referia o policial era o altar-mor da Igreja Paroquial. Eva recebia das mãos do guarda um papel amarelado, envelhecido, uma estilha de pergaminho deixada provavelmente para a vítima com duas inscrições em latim.

“Bella res est mori sua morte.”

“Que coisa mais bela, morrer de morte natural.”

“Res ab exitu spectanda et dirigenda est.”

“Antes de entrar, pensar na saída.”

- Obrigado. – Ela fôra acionada por volta das dezenove horas por uma beata que lhe relatara ofegante o caso do Padre Miguel, vítima da endemia de infarto. Este veio a falecer em meio a uma suposta revelação, algo que há muito deveria ter feito, mas que receava a recepção dos seus fiéis, preferindo deixar até então no anonimato. Dizia sua vida estar em risco, e se não comunicasse o que se passava em Altaneira, muita gente inocente viria a padecer a um mal iminente.

- A missa prosseguia dessa forma quando o Padre Miguel veio a desabar do altar, rolando pela escadaria, - Relatava a beata – daí vimos que uma figura estranha corria pelos arrebaldes da igreja. O sacristão Valério pegou da espingarda e, junto com os outros, foi à caça da criatura.

“- Ela usava de uma máscara negra e rutilante como piche. - E agregada a esta, uma longa peruca feita de palha amarela ouro que ia da cabeça à parte posterior dos joelhos. - E da peruca surgia um par de chifres como os de um bode .- Ela também carregava uma espécie de bolsa de tecido. - Uma demoníaca imagem, senhora.” – Os beatos contavam afobados o que viram à Eva.

Mesmo ferida no calcanhar pelo chumbo de Valério, a criatura conseguiu pular da ponte e seu corpo despencou para o rio, sendo levado rapidamente pela correnteza, despedindo-se dos olhos de todos ali que, mesmo temerosos, ansiavam as últimas olhadelas na criatura, esta ia se perdendo dentre os arbustos que circundavam as margens do rio enevoado. O que era para ser apenas mais uma missa de uma despretensiosa quinta-feira, acabou por mudar a rotina de vida de todo o povo daquela cidade.

Vários feixes de luz se intercruzavam na mata à beira-rio naquela noite, era Eva que pegava de alguns dos seus para desbravar o local onde possivelmente estaria a besta. Os populares a seguiam se acotovelando. Um rastro de sangue fôra encontrado, além de um frasco de heparina sódica e uma seringa que tinham sido esterilizados com álcool. A uns 100 metros de sua origem, o sangue possivelmente já havia sido estancado, apenas alguns ramos quebrados de arbustos possibilitaram prosseguir na caça. A trilha foi dar no asfalto, por onde a besta conseguiu escapar. Se via no rosto de Eva uma frustração deveras acentuada. Podia ela ter se apoderado do possível assassino de seu pai. Estava muito perto de pegá-lo, mas a má fortuna se assenhoreava de sua investida.

Agora Eva tinha mais certeza de que os infartos em Altaneira foram induzidos de alguma forma. Precisava investigar pautada nessa perspectiva. "O pergaminho encontrado na igreja deveria ter sido deixado pelo assassino ao padre antes de sua morte", por esta razão o pároco naquele momento conduzia a missa em caráter de revelação. “Morreu, pois sabia demais”, assim refletia Eva, já que padre Miguel passava dos 60 anos, diferia do perfil das outras vítimas, então. "O assassino tinha algum conhecimento fármaco", a heparina é uma substância anticoagulante, ele usou para estancar o sangue, e após a ter injetado, esterilizou o frasco e a seringa de forma a retirar qualquer impressão digital. Era meticuloso, sagaz.

No outro dia o Panacéia; o diário jornalístico de Altaneira, que tem como dono o médico Boris; cedo chega às casas, e a manchete principal seria de se esperar que fosse relacionada à cena vivenciada pelos beatos na noite passada. Mas outra notícia estampava a primeira página do jornal naquele dia.


quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Deus do Labirinto- Sete Paradoxos de Herbert Quain


Apiedo-me da alma de Herbert Quain, de cujo romance April March, escrito em 1936, nenhuma recordação restou-me que não fosse a tentativa fracassada de afrontá-lo. À guisa de lhe oferecer uma pequena nota de indulgência necrológica, como quisera o maior de seus asseclas, descobri que não se permanece imune à presença de Herbert Quain quando se erra pelas alamedas escuras de Roscommon, cidade que o viu falecer, e para onde acorri à procura de alguns manuscritos do escritor.


No entanto, e sem que pudesse pressentir, verifiquei (decepcionado) que não eram muitos os volumes da literatura quainiana que se podiam divisar na maior biblioteca daquela cidade, um enorme edifício à beira do Rio Shannon, ladeado por construções tombadas pelo patrimônio histórico irlandês. Cedo, não me foi difícil presumir que nem mesmo o hálito frio e ancestral das ruelas acidentadas de Roscommon oferecia o justo conforto à alma experimental do velho Quain: ali, mesmo depois de sua morte fatídica e precoce, sepultado sem maiores insígnias, ele jazia estrangeiro.


Que eu desistisse, pois a obra literária de Herbert Quain se havia fragmentado de tal modo que sequer os antiquários tradicionais da Província de Connacht noticiavam a respeito, disse-me o livreiro da Rua Elmo, procurando me demover da empresa de encontrar os tais manuscritos, já objetos de minha obstinação. Sem saber exatamente o porquê, ocorreu-me a apavorante idéia de que o autor de Statements havia caído no mais absoluto e horrendo esquecimento.


Por um capricho da fortuna, a surpresa me assaltou em County Westmeath, na vizinha província de Leinster, onde um afamado bibliófilo cego que se dizia amigo de Quain, mostrou-me o que eu apenas havia escutado existir: Os sete aforismos da história – texto cujos desdobramentos assinalariam a resposta de Herbert Quain a um de seus críticos mais severos, que se havia ofendido com um comentário seu sobre a “história da arte”, proferido em ocasião inoportuna.


Temendo que os aforismos não resistissem ao próprio esquecimento de seu criador, ou porque não mais pudesse suportar o peso de sua memória, pediu-me o bibliófilo que eu o publicasse, retribuindo sua gratidão com um volume de antiquário escrito nos fins do Século XIX. Eis o texto de Quain:

(Os Sete Aforismos da História - Prolegômenos para um Romance Regressivo, por Herbert Quain)



i. O não-laboratório do historiador é um alcoviteiro, exige um caso de amor secreto entre conceito e evidência, um amasiar-se, um estranho conúbio com as fontes.


ii. O historiador é um nômade agrilhoado.

iii. É dotada de uma estranha gaguez a fala do historiador; ela se deixa tropeçar em antigos pedaços de papel, em fragmentos de gestos, sinais, sintomas que sobrevivem em seu mata-borrão antes de serem sepultados no cemitério da escrita historiográfica.


iv. O gesto do historiador funda uma língua que não se expressa apenas por um vocabulário que lhe seja peculiar, mas por uma sintaxe que o exila das certezas permanentes, que fabrica seu conhecimento menos pela blindagem ou canonicidade de seus apetrechos de historiador do que pela violência que encerra a interpretação de que faz uso.


v. É fundado na violência o conhecimento histórico, pois os cortes que operam seus conceitos eliminam e excluem na proporção em que coligem, colecionam os materiais violentados pela interpretação.


vi. É mesmo esquizofrênica essa relação, pois tanto os conceitos esperam por certos materiais que os legitimem como também se deixam pedir por eles, seja para sagrar ou eliminar as hipóteses de historiador, seja para transformar ou se deixar transformar em novos conceitos.


vii. Não parece haver inocência no gesto do historiador



Todas as advertências recaiam sobre os leitores e vulgarizadores de Herbert Quain, que não admitia haver disciplina inferior à história. Foi necessária uma leitura a contrapelo de uma das oito narrativas de Statements para que eu compreendesse a heterodoxia de seus livros-jogos. O que não pude calcular foi a estranha ironia a que me conduziu o cego bibliófilo, por quem fui agraciado com um livro de 1897, cuja página 215 me fez enxergar o que o velho escritor irlandês queria mesmo dizer com "romance regressivo"...